A paisagem é a visão de quem se está a ver, não o pretendendo. Confuso? Então convém avisar com antecedência que nesta breve reflexão sobre a paisagem, entram um poeta quatrocentista e montanhista, um pintor que trabalhava com sugestões, velhas e novas tecnologias, algum egocentrismo, três graciosas irmãs com uma digna mãe e outras coisas igualmente estranhas.
Vamos por partes, para ver se alguma coisa faz sentido – A humanidade tem singrado neste mundo apropriando-se do possível e do impossível num egocentrismo que só não é atroz porque já vem de trás, o que a bem ou a mal lhe dá alguma autoridade. A posse não é meramente material, pois com o seu umbigo como ordem e medida de tudo o resto, têm sido feitos exercícios esdrúxulos de antropomorfizações, configurando uma outra posse muito mais subtil.
Sendo o objecto original da paisagem a natureza, representa tudo aquilo que nós não somos e onde nos é difícil projectarmos, quanto mais possuirmos, seja pela multiplicidade dos elementos constituintes, pela sua constituição diversa, ou pela escala. É assim a paisagem uma exploração do que nos é diferente e exterior? Nem por isso, como adiante veremos...
Três possibilidades se puseram à humanidade relativamente a este exterior: destruir, mudar ou simplesmente não fazer nada. Dada a impossibilidade que durante muito tempo se verificou de aniquilar o diferente, pela sua extensão e complexidade, e a dificuldade (que não impossibilidade) da sua transformação conveniente, tomou-se para este exterior uma variante da acção mais simples.
O nada fazer é uma opção simples, rápida e tranquila que se alia ás mil maravilhas à não consideração da Natureza como referente estético. Com algumas subtilezas e salvaguardas, foi o que se verificou durante a Idade Média, com a secundarização da aparência em favor do seu fundamento metafísico.
Tudo estaria muito bem, não fosse dar-se uma alteração radical de paradigmas religiosos, culturais e estéticos que supondo elevar o Homem, mostram que o homem se pode elevar. Em Abril de 1336, Petrarca (1304-74) e o seu irmão subiram ao alto dos 1911 metros do monte Ventoux (Vaucluse, França). Chegados ao topo e perante uma vista deslumbrante, o poeta abre ao acaso as Confissões de Santo Agostinho que convenientemente perora sobre a falência da aparência (1). Com mais ou menos sentimentos de culpa, o exterior afinal pode ser objecto de contemplação!
Da possibilidade de nada fazer relativamente à natureza e a situação em que Petrarca é parte activa, vai todo um mundo. São estabelecidos nexos de união entre sujeito e exterior, participando activamente o primeiro no segundo, afirmando-se a natureza desta relação eminentemente visual.
Para que a relação tivesse alguma consequência que ultrapassasse este primeiro e íntimo acto, desenvolveram-se meios que permitiram que fosse transmissível e perpetuada, pelo que à contemplação se associaram a representação e a construção. Deste modo, a relação geradora da paisagem evolui de um campo privado para uma esfera potencialmente pública, pois a original relação a dois abre-se a infindos observadores. São estes elementos que nos permitem partilhar a importância da subida do monte Ventoux para Petrarca, que cinco anos após o acontecimento, desenhou nas margens da História Natural de Plínio, uma vista do monte (com uma igreja no seu cume).
Foi pois com as três graciosas irmãs: contemplação, representação e construção que a paisagem se foi desenvolvendo, sempre sob o olhar atento da digníssima progenitora, a visão. À observação foram-se associando a representação como sua evocação e a construção como livre organização de formas verosímeis.
Tão próxima e eficaz foi a relação entre o real e o artifício, que no ocidente europeu e nos vários idiomas, ambos se confundiram num mesmo termo – paisagem, fazendo-o produto de uma visão educada e articulando o modo como se vê, com o que se vê (2). Neste contexto, o desenho desempenhou imprescindível função, como expressão que permite uma facilidade de deslocamento e trabalho em condições precárias que outras não admitem, funcionando não apenas como modo de apreensão, como de transformação da realidade.
Com a evolução das tecnologias, ao desenho associaram-se a fotografia, a pintura e actualmente toda uma panóplia de técnicas digitais, que continuando a explorar os termos da relação matricial entre o sujeito e o exterior, se propagaram no espaço e no tempo e que pondo a ênfase nos aspectos superficiais, fazem com que montes, vales, rios e árvores pareçam fazer uma paisagem.
Como? Montes, vales, rios e árvores não fazem uma paisagem? Sim, mas não só. Sendo estas umas formas da natureza que associamos à paisagem e que a construíram, assumem um protagonismo que oculta dois outros aspectos mais importantes e que justificam a frase inicial deste texto: o homem como actor e o modo como vê.
A figura humana foi desempenhando diferentes papéis na paisagem, seja ela real, desenhada, pintada, fotografada ou outra. Desde uma presença simbólica e diminuta, como elemento contextualizador e fornecedor de escala, até à completa substituição da natureza pelas suas construções, consubstanciando uma presença total. Neste sentido, são raros os exemplos de paisagens reais ou construídas em que o elemento humano esteja ausente, seja directa ou indirectamente. Se a destruição da natureza já esteve mais longe, a sua modificação é um dado assente, sendo a pegada do Homem, literal ou ecológica, registo visível de uma posse do planeta por usucapião.
Ora se a presença sempre imanente e nem sempre evidente da humanidade na paisagem é uma realidade que a arte tem acompanhado, apesar dos estereótipos resistentes, mais difícil e importante é a constatação da importância do observador no observado.
Em primeiro lugar e se quisermos, em termos técnicos, a paisagem desenvolve-se na exacta medida que possibilita ver e dar a ver formas e espaço nas melhores condições possíveis. Isto inclui a selecção criteriosa de um ponto de vista médio que favoreça a perspectiva (nem muito alto, que perturbaria a profundidade do espaço, nem muito baixo, que prejudicaria a sequência das formas). Trata-se de uma visão média, associando o conjunto e a unidade e permitindo numa mesma referência a identificação de formas específicas e a noção do todo a que estas pertencem. Tudo com um enquadramento rectangular cuja base é o lado maior, que corresponde ao enquadramento que a visão proporciona e que se adequa à vastidão, condição essencial de formas e espaços, independentemente de quais sejam
Em segundo e último lugar, que a paciência de um leitor tem limites, para mostrar o papel criador do observador, convoco a memória de Alexander Cozens (1717-86), conhecido sobretudo por ser o pai de John Robert Cozens (1752-98) que com Caspar David Friedrich (1774-1840) são os expoentes máximos da pintura de paisagem de um romantismo que atribuiu à natureza o protagonismo das composições. O velho Cozens diferencia-se destes seus descendentes pela relativa secundarização da natureza em favor do observador, num processo que lhe valeu o epíteto na época pouco simpático, de pintor dos borrões. Tratava-se de pintar com tinta preta uma folha de papel amarrotado, que era pressionado numa folha lisa. Os borrões obtidos prestavam-se a múltiplas leituras e construções, constituindo-se como base de uma paisagem que posteriormente se desenharia e pintaria. Para Cozens, os borrões eram tanto mais valiosos, quantas as múltiplas leituras que proporcionavam, em muito superiores ao sentido unívoco fornecido pela representação de formas (3).
A paisagem não é um exercício de inocência, nem recordação de uma arcádia que nunca existiu. É o fruto de uma relação entre um sujeito e o que o transcende, em que a presença do primeiro se verifica com maior ou menor relevo, em todos os termos da relação. Esta omnipresença e o seu conhecimento não são necessariamente negativos, pelo desenvolvimento de uma consciência crítica que responsabiliza o observador e o criador pelo produto da sua acção.
Que bela paisagem!
Paisagem?
O que é uma paisagem?

António Santos
(1) SCHAMA, Simon – Landscape and Memory. Londres, Fontana Press, 1996, 421
(2) BERQUE, Augustin – Les raisons du paysage. Éditions Hazan, 1995
“A paisagem natureza tem uma relação com a paisagem imagem, não em termos banais porque a representa, mas no fundo, porque a natureza de uma participa na natureza da outra. Ou ainda, mais justamente, porque uma e a outra se manifestam no sentido de um trabalho de estruturação que as assimila uma à outra” 13
(3) COZENS, Alexander – A new method of assisting the invention in drawing original compositions of landscape. Londres, edição de autor, 1759, 10-11
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Jorge Bacelar entrevista Jorge Bacelar
Jorge Bacelar – Olá.
Jorge Bacelar – Boas...
JB – Gostava de começar por te perguntar...
JB – Pergunta. Perguntar não ofende...
JB – Ahh, pois... ok, então, diz-me, o que andas a fazer?
JB – Tenho andado um bocado arredado destas coisas das artes, sabes como é, um gajo precisa de pagar as contas, fartei-me de aturar clientes cretinos e maus pagadores, apareceu-me a hipótese de dar aulas na Covilhã...
JB – Covilhã? Terra bonita...
JB – ... é, é bonita, e pronto. Achei que estava arrumado em termos criativos, que não dava duas prá caixa, e que estava na altura de passar a ser treinador...
JB – ...como os gajos do futebol? Arrumam as botas e vão pra treinadores?
JB – Isso mesmo. És perspicaz, pá!
JB – Pois... um gajo a entrevistar-se a si próprio é sempre mais fácil...
JB – E nem precisas de fazer investigação sobre o abrunho a quem vais fazer perguntas...
JB – ... só vantagens.
JB – Adiante, que já me perdi e nem sei quem faz as perguntas e quem responde.
JB – Dá no mesmo.
JB – Ahh, pois... certo... então recomeçamos aqui: estavas na Covilhã e eras treinador de futebol. Certo?
JB – Não. Estava na Covilhã a dar aulas aos putos na universidade, tal como um jogador retirado se dedica a treinar putos a dar chutos numa bola.
JB – Ahh, tá bem. E depois?
JB – Depois, ao fim de uns anos comecei a ficar com comichões e a questionar se aquilo era mesmo o que eu queria fazer quando fosse grande.
JB – Tá bem, questionaste, questionaste, mas foste fazendo a carreirinha académica, o mestrado, o doutoramento...
JB – Exacto. E o salário a aumentar proporcionalmente ao tédio.
JB – Tédio? Bem, na Covilhã não se podia esperar outra coisa, pois não?
JB – Não é esse tédio. Com esse podia eu bem. O tédio, o desencanto de sentir que estava a impingir patranhas sem o mínimo de interesse, assuntos que nem ao menino Jesus interessavam...
JB – Que assuntos?
JB – Essencialmente, tipografia, teorias da comunicação, história da arte. Entre outras tretas.
JB – Sim, tens razão: o menino Jesus devia ser analfabeto ou, mesmo que não fosse, só devia conhecer a escrita lá da terra dele, aramaico ou isso.
JB – Ou isso. Exactamente. E comecei a dar por mim todo escandalizado com os SMS que os putos enviavam, com a escrita deles no MSN, com a escrita e o dialecto deles nas aulas e nos testes, com as noitadas e bebedeiras estudantis. E reparei que me estava a parecer cada vez mais com um Senhor Professor Doutor PhD Desta Grande Treta, especialista emérito em coisa nenhuma, agarrado aos panos pretos da toga doutoral, só forma, ritual, salamaleque. Um rato de biblioteca com cérebro reduzido à preocupação de produzir notas de rodapé e referências bibliográficas impecáveis, de acordo com a Norma Portuguesa 405.
JB – E então, meteste-te na pinga, na droga?
JB – Não. Nem sequer no futebol. Nem mesmo na política autárquica, vê só.
JB – Então?
JB – Então? Olha, comecei a olhar para trás, para aquilo que tinha deixado a meio, e era muito, e redescobri o gozo do desenho.
JB – Bom, mas isso fizeste sempre...
JB – Estou a falar de desenho-desenho. O que andei a fazer era um sucedâneo, gráfico, uns cartazes, uns catálogos, desdobráveis, logotipos, para imprimir usar e deitar fora.
JB – E não te chegava? Pelos vistos, não...
JB – Tu é que me compreendes, hehe...
JB – Pois. E então, o tal desenho-desenho...
JB – Olha, foi o sacana do Luís Herberto que me meteu nisto. Com a treta de eu ser orientador do doutoramento dele...
JB – ... tu, a orientares um doutoramento? Essa é nova, hehehe...
JB – Novíssima... é preciso ser-se completamente louco para isso...
JB – pois, mas o gajo é...
JB – ...tem de ser, se não, nem lhe passava tal ideia entre as orelhas.
JB – Mas então, o Luís...
JB – O Luís, os quadros e os desenhos, o atelier, o antigo e esquecido cheiro das tintas e dos diluentes, os carvões e a grafite, as texturas do papel, tudo isso estava cá dentro, a dormir muito sossegadinho...
JB – ...até serem horas de acordar.
JB – Parece um bocado zen, mas na essência, acho que é isso.
JB – E então, que fazes agora?
JB – Olha, comecei logo por tentar construir a casa pelo telhado, com desenho do nu, uma coisa muito académica, e tal, mas...
JB – Isso não é começar pelo telhado pá. Já estavas a decidir a cor das cortinas ainda antes de teres a licença de obras...
JB – Engraçadinho... bom, seja telhado ou cortinas, o que é certo é que percebi rapidamente que tinha de regressar às aulas do Sá Nogueira, e começar do princípio, a mão que obedece à vontade em vez da mão com vontade própria, pianinho, devagarinho, humildemente, estou a desenhar chávenas e botas e corta-unhas e cinzeiros com pontas de cigarros...
JB – Naturezas mortas, portanto.
JB – Se é preciso catalogar, sim.
JB – E achas que alguém te vai comprar alguma coisa?
JB – Comprar?
JB – We are in it for the money, não é?
JB – Ahhh, bem, por acaso até dava jeito se entrasse algum no caixa, que estou a transformar o mecânico do meu carro num homem muito rico. Bem, se há loucos que me convidam para orientar teses de mestrado ou doutoramento, também é capaz de haver algum que me compre um desenho.
JB – A ver vamos...
JB – ...como dizia o ceguinho...